segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

A PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO


PARÁBOLA DO FILHO PRÓDIGO



Uma visão interpretativa mais profunda da parábola,

visando nos ajudar a esclarecer o seu real

 significado espiritual.



 “Prosseguiu (Jesus) dizendo: Um Homem tinha dois filhos. Disse o mais novo deles ao pai: Pai dá-me o quinhão dos bens que me toca. Ao que ele lhes repartiu os bens.

Passados poucos dias, o filho mais moço juntou tudo e partiu para uma terra longínqua.  Aí esbanjou a sua fortuna numa vida dissoluta.  Depois de tudo dissipado, sobreveio uma grande fome àquele país; e ele começou a sofrer necessidade.  Retirou-se então e pôs-se ao serviço de um dos cidadãos daquela terra.  Este o mandou para os seus campos guardar os porcos.  Ansiava ele por encher o estômago com as vagens que os porcos comiam, mas ninguém lhas dava.

Então entrou em si e disse: Quantos trabalhadores, em casa de meu pai, têm pão em abundância, e eu aqui morro de fome.  Levantar-me-ei e irei ter com meu pai, e lhe direi: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho; trata-me tão somente como um dos teus trabalhadores.

Levantou-se, pois, e foi em busca de seu Pai.

O pai avistou-o de longe, e, movido de compaixão, correu-lhe ao encontro, lançou-se-lhe ao pescoço e beijou-o.  Disse-lhe o filho: Pai, pequei contra o céu e diante de ti; já não sou digno de ser chamado teu filho. O pai, porém, ordenou a seus servos: Depressa, trazei a melhor veste e vesti-lha; ponde-lhe um anel no dedo e calçado nos pés. Buscai também o novilho gordo e carneai-o.  Comamos e celebremos um festim; porque este meu filho estava morto, e ressuscitou; andava perdido, e foi encontrado.

E começaram a celebrar o festim.

Entrementes, estava o filho mais velho no campo.  Quando voltou e se aproximou da casa, ouviu música e danças.  Chamou um dos criados e perguntou-lhe o que era aquilo.  Respondeu-lhe ele: Chegou teu irmão, e teu pai mandou carnear o novilho gordo; porque o recebeu são e salvo.  Indignou-se ele e não quis entrar.  Saiu então o pai e procurou persuadi-lo.  Ele, porém, respondeu ao pai:  Há tantos anos que te sirvo, e nunca transgredi nenhum mandamento teu; e nunca me deste um cabrito para eu me banquetear com os meus amigos.  Mas, logo que chegou esse teu filho, que dissipou os teus bens com meretrizes, lhe mandaste carnear o novilho gordo.

Meu filho, – tornou-lhe o pai - tu estás sempre comigo, e tudo o que é meu é teu.  Mas não podíamos deixar de celebrar um festim e alegrar-nos; porque este teu irmão estava morto e reviveu; andava perdido e foi encontrado”.

(Lc 15, 11-32 – Livro “Sabedoria das Parábolas” de Huberto Rodhen, páginas 21/27)

A parábola “O Filho Pródigo” é a nosso ver, a mais completa, instrutiva e a mais maravilhosa parábola que Jesus nos deixou.  Seu texto, lido e interpretado de forma literal, nos descreve uma situação trivial, que poderia nos levar, até a pensar, não ter sido ela transmitida por Jesus.  Se quando lida, no entanto, não só com os olhos físicos, mas com a mente espiritual, como o Filho pródigo o fez quando decidiu voltar à casa do Pai após ter avaliado a sua situação com os olhos espirituais, logo, de uma forma mais profunda e verdadeira, i. e., quando – Então, entrou em si - , a percepção que teremos da Parábola, nos trará um maior entendimento e por isso, uma significação muito mais abrangente e rica de seus ensinamentos.  Começamos, então, a intuir as respostas aos questionamentos de; qual é a nossa morada original? Porque de lá saímos? Para onde fomos e o que lá fizemos? Porque resolvemos voltar? Qual o caminho de volta?  Como será a nossa chegada ao lugar donde partimos e finalmente qual a influência do Tempo em todo este processo?.

 Clemente de Alexandria, um dos mais cultos padres que se dedicaram à interpretação dos ensinamentos de Jesus, nos ensina o seguinte:  “Sabendo que o Salvador não ensina nada de uma maneira meramente humana, não devemos ouvir seus pronunciamentos de forma carnal; mas com a devida investigação e inteligência , devemos buscar e aprender o significado deles” . (“Os ensinamentos de Jesus e a tradição esotérica cristã”, de Raul Branco , página 41).

Estamos aqui, portanto, num esforço para entender, com profundidade, as palavras e as razões que levaram o Filho pródigo a sair da Casa do Pai, qual o motivo das experiências por ele vividas e, mais tarde, o retorno à casa do Pai.  Vamos, então, preliminarmente, procurar entender quem realmente são os protagonistas da Parábola.



 O Homem/Pai é Deus, inteligência suprema, causa primária de todas as coisas e que é apresentado por Jesus como Pai.  Uma das maiores mensagens que Jesus nos trouxe, juntamente com a do Reino dos Céus, foi a apresentação de Deus, não mais como aquele da Bíblia, o senhor da guerra, ciumento, vingativo etc., mas, sim, como o Deus Amor, infinitamente bom e justo.  Nesse momento, Deus Espírito (João 4: 24), se apresenta como Pai.  “O pai representa aquele Genitor eterno e infinito do qual nascem o temporário e o finito. Ele é a Existência sem limite, sempre incognoscível e desconhecida, o inalterável, infinito, Todo-Eterno, Causa Sem-Causa, auto existente, o germe na raiz. Essa única Realidade Absoluta antecede toda existência manifestada; ela é a raiz Sem-raiz de tudo o que era, é e sempre será.”  (“A Sabedoria Oculta da Bíblia Sagrada” de Geoffrey Hodson, pag.130).



Os dois filhos. Sendo Deus o Criador e a essência de Tudo o que existe, os Espíritos são Sua criação. Foram todos criados à Sua imagem e Semelhança.  A sintonia dos dois filhos com o Pai, é perfeita.  Neste momento eles eram  um com o Pai no Reino dos Céus.



O Filho mais velho representa aquele filho que permaneceu sempre com o Pai ostentando o seu estado de perfeição original, pois nunca perdeu a consciência de sua unidade com a Divindade.  Os sentimentos negativos que lhe são atribuídos, “pode-se afirmar que a sugestão de ciúme na parábola, relativamente ao filho novo, não deve ser considerada seriamente.  Ela é provavelmente uma proteção ou véu que envolve as profundas ideias reveladas na alegoria ou mesmo uma determinação deliberada de afastar a mente para longe de tais seres e do poder conferido àqueles que estão capacitados a entrar  em contato com eles e a invocá-los para propósitos taumatúrgicos.” (“A Sabedoria Oculta da Bíblia Sagrada” de Geoffrey Hodson, pag.131/132).

  

O Filho mais novo, embora portador da perfeição original, perdeu  consciência de sua unidade com a Divindade ao afastar-se do Pai.  Tal distanciamento, acarretou a redução contínua e drástica de sua frequência vibratória e seu afastamento da Divindade, não do ponto de vista espacial mas vibracional. Esse afastamento implicou simultaneamente, no gradual esquecimento da perfeição que lhe era inerente e, adicionalmente, a sua saída do Reino de Deus e a sua entrada no universo finito, criado exclusivamente para atender a necessidade do tempo que esse viajor  necessitava. Na medida em que o afastamento vibratório ia se processando, o filho mais novo, ia esquecendo os atributos dos quais era portador inerentes a cada uma dessas faixas vibratórias. O afastamento não se processou, no entanto, de uma só vez.  O filho pródigo estacionou por algum tempo em cada uma dessas faixas e, enquanto nelas, estava consciente das perfeições inerentes a cada uma delas, exercitando-as consequentemente.  Esse processo se realizou em todas as diferentes faixas até que ele entrou na vibração da última faixa, a mais baixa, representada pelo reino mineral. A partir daí, tem início a viagem de volta através da reconquista gradativa de sua perfeição no universo finito criado por Jesus com as dimensões necessárias a essa trajetória ascensional.



A Herança.  A parte da herança que o Filho pródigo pediu ao Pai já lhe tinha sido dada originalmente, através da Centelha Divina que nos caracteriza como criação de Deus.  Perante o Pai todos somos iguais por sermos portadores da mesma Centelha Divina.



O Retorno.  No momento em que o Filho pródigo chegou ao reino mineral, a sua perfeição original estava totalmente esquecida.  Seu livre arbítrio inoperante. A Lei de Deus, no entanto, estabelece que é necessário fazer o caminho de volta, recuperando a consciência de tudo aquilo que tinha sido esquecido.  Para isso seu estágio no reino mineral é o início de  retorno  do Filho Pródigo à Casa do Pai.  Através da permanência nos três Reinos da Natureza (Mineral, Vegetal, Animal) e o Elemental, ele recupera parte significativa de sua memória da perfeição e se habilita a entrar no Reino Humano através do pleno exercício de seu Livro Arbítrio.  A partir, desse momento, a sua capacidade de escolher estará sempre presente ditando a presteza ou lerdeza do retorno á Casa do Pai. 



Conclusão. A Parábola “O Filho Pródigo” é a exemplificação, que Jesus nos deixou, do que vem a ser a nossa vilegiatura nesse nosso universo finito.  Ele define claramente, a nossa origem e o nosso destino estabelecendo, de uma forma cristalina, os meios pelos quais poderemos encurtar ou delongar nossa trajetória entre esses dois pontos.  A Lei de Deus é a Lei do equilíbrio perfeito que rege todos os universos.  Quando criamos o desequilíbrio a própria Lei já contém os códigos que disparam os mecanismos que nos induzem a restabelecer esse  equilíbrio,  através  dos  dois  caminhos que estão a nossa disposição e que podemos escolher, o  amor ou a dor. A escolha é, portanto, de cada um de nós.  Deus não tem pressa, pois, não está num Universo finito cuja característica maior é o tempo, mas sim  no Reino Eterno onde tudo É.





Francisco Fortes

Dezembro de 2016     

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