EVOLUÇÃO DA DOUTRINA ESPÍRITA
“Na
natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” (Lavoisier)
“Caminhando
de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se
novas descobertas lhe demonstrarem estar em erro acerca de um ponto qualquer,
ele se modificará nesse ponto. Se uma
verdade nova se revelar, ele a aceitará.” (A Gênese, cap. I, item 55)
Antes
de entrarmos no tema do presente estudo, é
importante que entendamos o que vem a ser “Doutrina”. Canuto Abreu em seu livro “O Evangelho por
fora” Capítulo XI, item 2, nos informa o seguinte:
“Do Latim ‘doctrina’ (de
‘docere’, ensinar), significa, no sentido primitivo, ensino
ou ensinamento, isto é: ‘Aquilo que é ensinado
como hipótese, princípio, regra ou axioma’. (grifo nosso) É, pois, aquilo que se afirma ser
verdadeiro ou falso em matéria científica, filosófica ou religiosa.
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Em tal acepção ocorre
‘Doutrina dos Espíritos’ no # I da Introdução em ‘O Livro dos Espíritos’: “Diremos,
portanto, que a doutrina espírita tem por fundamento as relações do Mundo
Material com os Espíritos”. Aqui,
‘doutrina’, equivale a ‘hipótese’ ou ‘crença’.
(grifo nosso) Foi empregada em oposição a outras
‘doutrinas’ ou ‘teorias’ que pretendem explicar, natural ou sobrenaturalmente, as manifestações espíritas desde Hydesville
até nosso tempo”.
A
dúvida sobre ser a Doutrina Espírita evolutiva ou não é, portanto, uma questão
que preocupa a todos os estudiosos e praticantes da referida doutrina. Alguns de nós, ortodoxos, somos de opinião de
que a Doutrina é perfeita, está totalmente definida no Pentateuco e que nada é
necessário ser mudado ou acrescentado.
Outros de nós, no entanto, acreditam que o que foi e é criado em nosso
universo transitório – as nossas “verdades” – são mutáveis. Lavoisier nos deixou esse princípio fático no
enunciado transcrito no preâmbulo desse estudo. Isso é, também, confirmado
pelas próprias características desse universo no qual vivemos de quatro
dimensões, onde um de seus componentes – o tempo – o torna extremamente mutável. Veremos, mais adiante, que o próprio
codificador, Alan Kardec, acreditava que a doutrina nunca estaria terminada
conforme trecho da Gênese acima transcrito.
Outra
visão que alguns de nós também temos é que, antes da divulgação da Doutrina
Espírita nada existia que lhe pudesse ser comparado. No entanto, Léon Denis em
seu livro “Depois da Morte”, Parte Primeira, Capítulo I, nos esclarece a
respeito da Doutrina Secreta:
Se, do domínio dos fatos,
passarmos ao dos princípios, teremos de esboçar desde logo as grandes linhas da doutrina secreta. (grifo nosso) Ao ver desta,
a vida não é mais que a evolução, no tempo e no espaço, do Espírito, única
realidade permanente. A matéria é sua
expressão inferior, sua forma variável.
O Ser por excelência, fonte de todos os seres, é Deus, simultaneamente
triplo e uno – essência, substância e vida – em que se resume todo o
Universo. Daí o deísmo trinitário que,
da Índia e do Egito, passou, desfigurando-se, para a doutrina cristã..........A
alma humana, parcela da grande alma, é imortal. Progride e sobe para o seu
autor através de existências numerosas, alternativamente terrestres e
espirituais, por um aperfeiçoamento contínuo.
Em suas encarnações, constitui ela o homem, cuja natureza ternária – o
corpo, o períspirito e a alma -, centros correspondentes da sensação,
sentimento e conhecimento, torna-se um microcosmo ou pequeno mundo, imagem
reduzida do macrocosmo ou Grande-Todo.
Eis por que podemos encontrar Deus no mais profundo do nosso ser,
interrogando a nós mesmos na solidão, estudando e desenvolvendo as nossas
faculdades latentes, a nossa razão e consciência. Tem duas faces a vida universal: a involução
ou descida do Espírito à matéria para a criação individual, e a evolução ou
ascensão gradual, na cadeia das existências, para a Unidade divina.”
Há
algo no acima que seja diferente dos princípios da Doutrina Espírita? Claro que não. Por isso é que Léon Denis no mesmo livro no
Capítulo VIII nos informa:
“Na filosofia dos
Espíritos encontramos a doutrina oculta que abrange todas as idades. Ela
faz reviver esta doutrina debaixo das maiores e das mais puras formas.” (Grifo
nosso).
Para
melhor ilustrar o fato de que a Doutrina Espírita reflete ensinamentos
milenares que nos foram transmitidos por porta-vozes de Deus, desde o início da
existência de nosso universo, estamos apresentando abaixo relação que contêm os
nomes de alguns desses porta-vozes e os princípios que defendiam, à época em
que viveram.
As modificações a que a Doutrina Espírita
poderia estar sujeita são reconhecidas
pelo próprio Allan Kardec, nas passagens que se seguem:
“O Espiritismo está longe
de ter dito a última palavra, quanto às suas consequências, mas é inabalável em
sua base, porque esta base se assenta sobre fatos.” (Revista
Espírita, Fevereiro de 1865, “Da Perpetuidade do Espiritismo”.)
“O Livro dos Espíritos não
é um tratado completo do Espiritismo; não faz senão colocar-lhe as bases e os
pontos fundamentais, que devem se desenvolver sucessivamente pelo estudo e
observação.” (Revista Espírita, Julho de 1866, “Visão
retrospectiva das existências dos Espíritos”).
“Longe estamos de
considerar como absoluta e como sendo a última palavra a teoria que
apresentamos. Novos estudos sem dúvida a
complementarão, ou retificarão mais tarde, entretanto por mais incompleta ou
imperfeita que seja ainda hoje, sempre pode auxiliar o estudioso a reconhecer a
possibilidade dos fatos. (“Livro
dos Médiuns, Capítulo VI, item 110).
“Nenhuma ciência existe
que haja saído prontinha do cérebro de um homem. Todas, sem exceção de nenhuma, são fruto de
observações sucessivas, apoiadas em observações precedentes, como em um ponto
conhecido para chegar a um desconhecido.
Foi assim que os Espíritos procederam com relação ao Espiritismo. Daí o ser gradativo o ensino que
ministram. Eles não enfrentam as
questões, senão à medida que os princípios sobre que hajam de apoiar-se estejam
suficientemente elaborados e amadurecidos bastante a opinião para os assimilar.
(“A
Gênese”, Capítulo I, item 54).
“Preocupado em não deixar
de dar orientação segura, visto que se preocupava com os problemas aqui
citados, Kardec também faz judiciosas considerações, quando da sua proposta de
Constituição Transitória do Espiritismo, na qual sugere a criação de uma
Comissão Central para coordenar a Doutrina.
Relaciona, inclusive, as atribuições da Comissão, entre as quais
destacamos, estes dois itens que grifamos:
2º
Estudo dos princípios novos, suscetíveis de entrarem no corpo da Doutrina.
7º
O exame e a interpretação das obras, artigos de jornais, e todo escrito
interessando à Doutrina. A refutação de
ataques, se tiverem lugar. (http://www.aeradoespirito.net.com.br).
Dentro
dessa linha de raciocínio, o próprio “O Livro dos Espíritos” nos comprova a
necessidade que a Doutrina tem de modificações e adições. A primeira versão do LE foi publicada em 18
de Abril de 1857 com 501 perguntas. Três
anos após, em 16 de Março de 1860 foi lançada a segunda versão com 1019
perguntas, inalterada até hoje.
Em
1859 foi publicada a “A Origem das Espécies” de Charles Darwin, que sem dúvida
alguma, influiu na edição revisada de
1860 do LE, na parte em que Kardec trata
dos Três Reinos.
Se
analisarmos os livros de André Luiz e Emmanuel, encontraremos inúmeros
ensinamentos que nos ajudam a entender melhor a grandeza desse Espírito – que
somos nós - criado por Deus. Estando a Lei de Deus na nossa consciência,
conforme os Espíritos afirmaram a Kardec na resposta à pergunta 621 do LE, a
percepção dessa realidade é gradativa.
Cada um de nós, com o tempo, tem consciência maior ou menor dessa Lei, portanto
o diálogo entre nós é, as vezes, muito difícil porque o nível de consciência de
cada um é individual. Em muitas ocasiões é como se estivéssemos falando com o
outro usando línguas diferentes. É
necessário, em tal situação, a presença da tolerância, do respeito ao
pensamento do outro, qualquer que ele seja, e a predisposição para examinar e
raciocinar sobre uma nova visão de determinado assunto.
É
por isso que Ermance Dufaux no livro “Unidos pelo Amor”, (Capítulo 20, “Legenda
Cristã para as Casas Espíritas” nos diz:
“Debate
– o dogma é reflexo
inevitável das mentes primárias nos valores da fé. Serviu e ainda serve a expressiva parcela da
humanidade como âncora de segurança, nos domínios da crença. O Espiritismo, porém, é convite à lucidez em direção à verdade. (Grifo
nosso)
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Debate não é somente um
círculo de reuniões onde se filosofa e estuda, mas um hábito mental de superar
crendices sem fundamento, eximindo-nos do “fanatismo pacífico” de cada dia,
libertando-nos das cadeias dos raciocínios comuns e aprendendo a construir uma sequência de ideias afinadas
com a lógica de Deus, (grifo nosso) uma visão que escapa até mesmo de alguns padrões já dogmatizados dentro
do seio do próprio movimento espírita.”
Conclusão
Nada
neste nosso universo, espiritual ou físico, está imóvel. Tudo evolui. Pela sua própria natureza ele é
mutável e devemos agradecer à Deus tal característica porque é através dela que
conseguimos a evolução transformadora que nos levará de volta à Casa do
Pai. Aquilo que chamamos de “verdades”
nada mais são do que “versões dessa verdade”.
Para fechar este pequeno estudo
está transcrito abaixo a
opinião de
Max Planck, Prêmio Nobel e uma das glórias da ciência
moderna que nos declara:
“Como
físico e ainda homem que dedicou toda sua vida à ciência objetiva para
perquirição sobre a matéria, posso sem dúvida não temer que me considerem um
fanático. Por isso posso livremente
afirmar, após meus longos estudos sobre o átomo, que não existe nenhuma
matéria em si mesma. Toda a matéria tem origem e existe somente numa
força, a qual faz oscilar as partículas atômicas e as mantém unidas ao
microscópico sistema solar do átomo. Já
que, no entanto, no inteiro universo não se encontra nenhuma força inteligente,
nem eterna, tal força jamais a humanidade a alcançou, ela cansativamente
desejou descobrir o perpetuum móbile (moto perpétuo). Assim,
devemos admitir que por detrás dessa força existe um espírito consciente e
inteligente. Este espírito é preexistente à matéria. Não é a matéria visível que forma a
realidade, o verdadeiro, o concreto, mas sim é o espírito universal e imortal a
verdadeira realidade. A origem última de
todas as coisas encontra-se no mundo parafísico.” (grifos nossos) (“O Livro dos Fluidos” de
autoria dos Espíritos Eurípedes Barsanulfo, Ismael Alonso e Miguel de
Alcântara, psicofonia de João Berbel, pág.54).
Essa realidade que Max Planck nos descreve, ocorre
pela separação que hoje existe entre Religião e Ciência. Se olharmos bem mais para trás,
constataremos que Religião e Ciência eram conhecimentos que andavam juntos e se
complementavam. Não era necessária a comprovação de assertivas científicas. A fé cega era a justificativa para tudo. Com
o advento de Decartes (1596-1650) foi proposto a “realidade dualista”, ou seja,
a existência de dois mundos separados “o
reino de extensão material, de caráter essencialmente geométrico e mecânico” e
o “reino da substância do pensamento, que
não possui extensão”. A partir daí a
separação se tornou cada vez mais nítida até os dias de hoje e a grande falha
foi não se ter construído pontes de acesso entre as duas. Na falta dessas pontes vemos a ciência chegando
a um momento em que seus processos
investigativos, cada vez mais profundos, encontram uma barreira que não
conseguem ultrapassar porque a continuidade do processo já se insere pelo mundo
imponderável da espiritualidade.
A singela definição,
transformista, de Lavoisier aplicável ao nosso universo de quatro dimensões,
nos leva, em contrapartida, a pensar que no Universo de Deus – onde nós Espíritos
fomos criados – tal lei não se aplica, justamente porque, nesse Universo, não
existem, tempo e espaço. A geração do
nosso universo ocorreu, portanto, após a
nossa criação Espiritual não importando, no caso, a interpretação que dermos,
porventura, a resposta a pergunta 115 do
LE.
Francisco Fortes
28 de Novembro de 2013