quinta-feira, 25 de junho de 2015

EVOLUÇÃO DA DOUTRINA ESPÍRITA


EVOLUÇÃO  DA  DOUTRINA  ESPÍRITA


                                  “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma.” (Lavoisier)

                                

                                  “Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrarem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificará nesse ponto.  Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará.” (A Gênese, cap. I, item 55)


Antes de entrarmos no tema do presente estudo, é importante que entendamos o que vem a ser “Doutrina”.  Canuto Abreu em seu livro “O Evangelho por fora” Capítulo XI, item 2, nos informa o seguinte:

“Do Latim ‘doctrina’ (de ‘docere’, ensinar), significa, no sentido primitivo, ensino ou ensinamento, isto é: ‘Aquilo que é ensinado como hipótese, princípio, regra ou axioma’. (grifo nosso) É, pois, aquilo que se afirma ser verdadeiro ou falso em matéria científica, filosófica ou religiosa.

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Em tal acepção ocorre ‘Doutrina dos Espíritos’ no # I da Introdução em ‘O Livro dos Espíritos’: “Diremos, portanto, que a doutrina espírita tem por fundamento as relações do Mundo Material com os Espíritos”. Aqui, ‘doutrina’, equivale a ‘hipótese’ ou ‘crença’. (grifo nosso)  Foi empregada em oposição a outras ‘doutrinas’ ou ‘teorias’ que pretendem explicar, natural ou sobrenaturalmente, as manifestações espíritas desde Hydesville até nosso tempo”.


A dúvida sobre ser a Doutrina Espírita evolutiva ou não é, portanto, uma questão que preocupa a todos os estudiosos e praticantes da referida doutrina.  Alguns de nós, ortodoxos, somos de opinião de que a Doutrina é perfeita, está totalmente definida no Pentateuco e que nada é necessário ser mudado ou acrescentado.  Outros de nós, no entanto, acreditam que o que foi e é criado em nosso universo transitório – as nossas “verdades” – são mutáveis.  Lavoisier nos deixou esse princípio fático no enunciado transcrito no preâmbulo desse estudo. Isso é, também, confirmado pelas próprias características desse universo no qual vivemos de quatro dimensões, onde um de seus componentes – o tempo – o torna  extremamente mutável.  Veremos, mais adiante, que o próprio codificador, Alan Kardec, acreditava que a doutrina nunca estaria terminada conforme trecho da Gênese acima transcrito.


Outra visão que alguns de nós também temos é que, antes da divulgação da Doutrina Espírita nada existia que lhe pudesse ser comparado. No entanto, Léon Denis em seu livro “Depois da Morte”, Parte Primeira, Capítulo I, nos esclarece a respeito da Doutrina Secreta:


Se, do domínio dos fatos, passarmos ao dos princípios, teremos de esboçar desde logo as grandes linhas da doutrina secreta. (grifo nosso) Ao ver desta, a vida não é mais que a evolução, no tempo e no espaço, do Espírito, única realidade permanente.  A matéria é sua expressão inferior, sua forma variável.  O Ser por excelência, fonte de todos os seres, é Deus, simultaneamente triplo e uno – essência, substância e vida – em que se resume todo o Universo.  Daí o deísmo trinitário que, da Índia e do Egito, passou, desfigurando-se, para a doutrina cristã..........A alma humana, parcela da grande alma, é imortal. Progride e sobe para o seu autor através de existências numerosas, alternativamente terrestres e espirituais, por um aperfeiçoamento contínuo.  Em suas encarnações, constitui ela o homem, cuja natureza ternária – o corpo, o períspirito e a alma -, centros correspondentes da sensação, sentimento e conhecimento, torna-se um microcosmo ou pequeno mundo, imagem reduzida do macrocosmo ou Grande-Todo.  Eis por que podemos encontrar Deus no mais profundo do nosso ser, interrogando a nós mesmos na solidão, estudando e desenvolvendo as nossas faculdades latentes, a nossa razão e consciência.  Tem duas faces a vida universal: a involução ou descida do Espírito à matéria para a criação individual, e a evolução ou ascensão gradual, na cadeia das existências, para a Unidade divina.”


Há algo no acima que seja diferente dos princípios da Doutrina Espírita?  Claro que não.  Por isso é que Léon Denis no mesmo livro no Capítulo VIII nos informa:


“Na filosofia dos Espíritos encontramos a doutrina oculta que abrange todas as idades.  Ela faz reviver esta doutrina debaixo das maiores e das mais puras formas.” (Grifo nosso).


Para melhor ilustrar o fato de que a Doutrina Espírita reflete ensinamentos milenares que nos foram transmitidos por porta-vozes de Deus, desde o início da existência de nosso universo, estamos apresentando abaixo relação que contêm os nomes de alguns desses porta-vozes e os princípios que defendiam, à época em que viveram.














 As modificações a que a Doutrina Espírita poderia estar  sujeita são reconhecidas pelo próprio Allan Kardec, nas passagens que se seguem:

“O Espiritismo está longe de ter dito a última palavra, quanto às suas consequências, mas é inabalável em sua base, porque esta base se assenta sobre fatos.” (Revista Espírita, Fevereiro de 1865, “Da Perpetuidade do Espiritismo”.)


“O Livro dos Espíritos não é um tratado completo do Espiritismo; não faz senão colocar-lhe as bases e os pontos fundamentais, que devem se desenvolver sucessivamente pelo estudo e observação.” (Revista Espírita, Julho de 1866, “Visão retrospectiva das existências dos Espíritos”).


“Longe estamos de considerar como absoluta e como sendo a última palavra a teoria que apresentamos.  Novos estudos sem dúvida a complementarão, ou retificarão mais tarde, entretanto por mais incompleta ou imperfeita que seja ainda hoje, sempre pode auxiliar o estudioso a reconhecer a possibilidade dos fatos.  (“Livro dos Médiuns, Capítulo VI, item 110).


“Nenhuma ciência existe que haja saído prontinha do cérebro de um homem.  Todas, sem exceção de nenhuma, são fruto de observações sucessivas, apoiadas em observações precedentes, como em um ponto conhecido para chegar a um desconhecido.  Foi assim que os Espíritos procederam com relação ao Espiritismo.  Daí o ser gradativo o ensino que ministram.  Eles não enfrentam as questões, senão à medida que os princípios sobre que hajam de apoiar-se estejam suficientemente elaborados e amadurecidos bastante a opinião para os assimilar. (“A Gênese”, Capítulo I, item 54).


“Preocupado em não deixar de dar orientação segura, visto que se preocupava com os problemas aqui citados, Kardec também faz judiciosas considerações, quando da sua proposta de Constituição Transitória do Espiritismo, na qual sugere a criação de uma Comissão Central para coordenar a Doutrina.  Relaciona, inclusive, as atribuições da Comissão, entre as quais destacamos, estes dois itens que grifamos:

2º Estudo dos princípios novos, suscetíveis de entrarem no corpo da Doutrina.

7º O exame e a interpretação das obras, artigos de jornais, e todo escrito interessando à Doutrina.  A refutação de ataques, se tiverem lugar. (http://www.aeradoespirito.net.com.br).


Dentro dessa linha de raciocínio, o próprio “O Livro dos Espíritos” nos comprova a necessidade que a Doutrina tem de modificações e adições.  A primeira versão do LE foi publicada em 18 de Abril de 1857 com 501 perguntas.  Três anos após, em 16 de Março de 1860 foi lançada a segunda versão com 1019 perguntas, inalterada até hoje.

Em 1859 foi publicada a “A Origem das Espécies” de Charles Darwin, que sem dúvida alguma,  influiu na edição revisada de 1860 do LE, na parte em que Kardec  trata dos Três Reinos.

Se analisarmos os livros de André Luiz e Emmanuel, encontraremos inúmeros ensinamentos que nos ajudam a entender melhor a grandeza desse Espírito – que somos nós -  criado por Deus.  Estando a Lei de Deus na nossa consciência, conforme os Espíritos afirmaram a Kardec na resposta à pergunta 621 do LE, a percepção dessa realidade é gradativa.  Cada um de nós, com o tempo, tem consciência maior ou menor dessa Lei, portanto o diálogo entre nós é, as vezes, muito difícil porque o nível de consciência de cada um é individual. Em muitas ocasiões é como se estivéssemos falando com o outro usando línguas diferentes.  É necessário, em tal situação, a presença da tolerância, do respeito ao pensamento do outro, qualquer que ele seja, e a predisposição para examinar e raciocinar sobre uma nova visão de determinado assunto.


É por isso que Ermance Dufaux no livro “Unidos pelo Amor”, (Capítulo 20, “Legenda Cristã para as Casas Espíritas” nos diz:


“Debate – o dogma é reflexo inevitável das mentes primárias nos valores da fé.  Serviu e ainda serve a expressiva parcela da humanidade como âncora de segurança, nos domínios da crença.  O Espiritismo, porém, é convite à lucidez em direção à verdade. (Grifo nosso)

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Debate não é somente um círculo de reuniões onde se filosofa e estuda, mas um hábito mental de superar crendices sem fundamento, eximindo-nos do “fanatismo pacífico” de cada dia, libertando-nos das cadeias dos raciocínios comuns e aprendendo a construir uma sequência de ideias afinadas com a lógica de Deus, (grifo nosso) uma visão que escapa até mesmo de alguns padrões já dogmatizados dentro do seio do próprio movimento espírita.”


Conclusão


Nada neste nosso universo, espiritual ou físico, está imóvel.  Tudo evolui. Pela sua própria natureza ele é mutável e devemos agradecer à Deus tal característica porque é através dela que conseguimos a evolução transformadora que nos levará de volta à Casa do Pai.  Aquilo que chamamos de “verdades” nada mais são do que “versões dessa verdade”.


Para fechar este pequeno estudo está transcrito abaixo a opinião de Max Planck, Prêmio Nobel e uma das glórias da ciência moderna que nos declara:


 “Como físico e ainda homem que dedicou toda sua vida à ciência objetiva para perquirição sobre a matéria, posso sem dúvida não temer que me considerem um fanático.  Por isso posso livremente afirmar, após meus longos estudos sobre o átomo, que não existe nenhuma matéria em si mesma.  Toda a matéria tem origem e existe somente numa força, a qual faz oscilar as partículas atômicas e as mantém unidas ao microscópico sistema solar do átomo.  Já que, no entanto, no inteiro universo não se encontra nenhuma força inteligente, nem eterna, tal força jamais a humanidade a alcançou, ela cansativamente desejou descobrir o perpetuum móbile (moto perpétuo).  Assim, devemos admitir que por detrás dessa força existe um espírito consciente e inteligente.  Este espírito é preexistente à matéria.  Não é a matéria visível que forma a realidade, o verdadeiro, o concreto, mas sim é o espírito universal e imortal a verdadeira realidade.  A origem última de todas as coisas encontra-se no mundo parafísico.”  (grifos nossos) (“O Livro dos Fluidos” de autoria dos Espíritos Eurípedes Barsanulfo, Ismael Alonso e Miguel de Alcântara, psicofonia de João Berbel, pág.54).


Essa realidade que Max Planck nos descreve, ocorre pela separação que hoje existe entre Religião e Ciência.  Se olharmos bem mais para trás, constataremos que Religião e Ciência eram conhecimentos que andavam juntos e se complementavam. Não era necessária a comprovação de  assertivas científicas.  A fé cega era a justificativa para tudo. Com o advento de Decartes (1596-1650) foi proposto a “realidade dualista”, ou seja, a existência de dois mundos separados “o reino de extensão material, de caráter essencialmente geométrico e mecânico” e o “reino da substância do pensamento, que não possui extensão”.  A partir daí a separação se tornou cada vez mais nítida até os dias de hoje e a grande falha foi não se ter construído pontes de acesso entre as duas.  Na falta dessas pontes vemos a ciência chegando a um momento em que  seus processos investigativos, cada vez mais profundos, encontram uma barreira que não conseguem ultrapassar porque a continuidade do processo já se insere pelo mundo imponderável da espiritualidade.


A singela definição, transformista, de Lavoisier aplicável ao nosso universo de quatro dimensões, nos leva, em contrapartida, a pensar que no Universo de Deus – onde nós Espíritos fomos criados – tal lei não se aplica, justamente porque, nesse Universo, não existem, tempo e espaço.  A geração do nosso universo ocorreu, portanto,  após a nossa criação Espiritual não importando, no caso, a interpretação que dermos, porventura, a  resposta a pergunta 115 do LE.     




Francisco Fortes

28 de Novembro de 2013

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